ENSAIO ECONÔMICO SOBRE O PROCESSO BOLIVARIANO: REFORMA OU REVOLUÇÃO[1]?
Rogério Vincent Perito
RESUMO
O processo bolivariano é hoje na América Latina uma de nossas grandes esfinges, que constantemente traz à tona um velho debate em forma de binômio: Reforma ou Revolução? Distante da pretensão de responder tal pergunta, este ensaio se debruçará na história econômica contemporânea de Venezuela e pensará o processo bolivariano a partir de duas premissas básicas: a) Dinâmica de Acumulação b) Os movimentos ou tendências ( e ou programas políticos econômicos) de superação de uma forma social de produção. Pensando o capitalismo contemporâneo em sua fase de mundialização financeira e o significado da Venezuela bolivariana. Os limites e as possibilidades que se abriram para a classe trabalhadora neste processo que se inicia.
1 – INTRODUÇÃO
Este texto é produto da experiência prática e teórica dentro do processo bolivariano, produto de três meses vividos no 23 de Enero[2], da prática militante com o generoso povo trabalhador de Bolívar e Miranda[3] e obviamente do diálogo constante com os livros a mão cheia. Esclareço também que este texto é apenas um Borrador, distante de uma posição fechada teoricamente e definida no conjunto, apenas um exercício analítico, ou seja, o processo bolivariano é hoje na América Latina uma de nossas grandes esfinges, que constantemente traz à tona um velho debate em forma de binômio: Reforma ou Revolução? Distante da pretensão de responder tal pergunta, este ensaio se debruçará na história econômica contemporânea de Venezuela e pensará o processo bolivariano a partir de duas premissas básicas: a) Dinâmica de Acumulação b) Os movimentos ou tendências (programas políticos econômicos) de superação de uma forma social de produção. Pensar a Venezuela hoje é extremamente inspirador para as pessoas que ainda se deixam envolver pelo sonho de uma América Latina livre, justa e solidária, por isso desde já, devemos esclarecer que este texto em alguns momentos tenta ser do cientista, e em outros é do apaixonado. Até porque a ciência boa é aquela que carrega paixões e desbrava limites.
Na primeira parte deste texto pensaremos a formação econômica do capitalismo contemporâneo, a formação dos blocos sociais em torno do projeto neoliberal, o significado do neoliberalismo na tomada de decisão de uma nação e o papel da Venezuela na América Latina, que paulatinamente se coloca mais uma vez como espaço de lutas avançadas no mundo.
Em seguida, apresentaremos os antecedentes históricos do processo bolivariano. De forma breve retomaremos a história econômica desde a Venezuela de 1958, na derrubada da ditadura de Perez Jimenez, até o esfacelamento do tecido social formado no Pacto de Punto Fijo[4]. Passaremos ainda pelo movimento conhecido por Caracazo[5], momento que se não se apresenta como marco constitutivo do processo bolivariano, mas sim como a gênese da quebra das formas institucionalizadas de manutenção da hegemonia e do controle de classe da oligarquia rentista[6] venezuelana. Na última parte deste estudo refletiremos sobre a dinâmica econômica da Venezuela antes do processo Bolivariano e o papel do desenvolvimento endógeno hoje, modelo com uma base epistemológica eclética, mas que aponta pela vereda do desenvolvimento econômico com soberania nacional, com aprofundamento da democracia em uma perspectiva econômica e política e com uma doutrina das relações internacionais que aponta pelo caminho do antiimperialismo. Pensaremos o processo a partir de uma análise teórica, mas testando constantemente a robustidão do discurso bolivariano a partir do próprio resultado empírico.
A MUNDIALIZAÇÃO FINANCEIRA: Apontamentos Gerais para Pensar o Capitalismo Atual e o Papel da Venezuela Bolivariana.
Após os trinta gloriosos o capitalismo mundial entrou em um período recessivo, com características da clássica lei tendencial da queda da taxa de lucro, após um virtuoso e expressivo ciclo de crescimento, o capitalismo mundial deu sinais de que não conseguiria manter o mesmo ritmo de crescimento e ingressou em uma fase de recessão. Acentuada por três pontos: 1) Pelo déficit na economia norte-americana causado pela guerra no Vietnam e a conseqüente desvalorização da moeda 2) Os EUA temerosos pela possibilidade de um choque de reversão dólar-ouro, romperam com o padrão dólar-ouro, adotado pelo mundo no tratado de Breton Woods, diga-se de passagem, rompimento de forma unilateral e sem aviso prévio 3) A Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em repúdio à posição do Ocidente no atrito entre Israel e Egito, articulou um choque nos preços do barril do petróleo, causando uma grande desestabilização na economia mundial. No sentido de minimizar os efeitos da crise, os centros do capitalismo, Washington e Londres, redesenharam uma nova forma de ser do mundo capitalista. As novas tecnologias permitiram uma lógica jamais vista nos modelos de trading, lembrando Marx, no inicio dos Grundrisse, Capital é valor que se valoriza .e mercado mundial. Enfim, intensificaram-se as relações comerciais e o fluxo de capital de forma jamais vista em toda história do capitalismo. Londres ainda nos anos 50 constrói o primeiro e mais seguro mercado interbancário - offshore. É justamente nos início dos anos 70 que a Europa está com uma alta massa de liquidez, os eurodólares e os petrodólares em um grande bolo de moeda. Eis a gênese do maior mecanismo de dependência dos países em desenvolvimento. Londres oferece ao terceiro mundo linhas de crédito, aquela massa de liquidez deveria se valorizar de alguma forma, a transformam em capital portador de juros, com taxas de juros flutuantes, indexadas pelas taxas de juros do (FED) Federal Reserve. Em 1978, Paul Volker, então presidente do FED, aumenta de forma astronômica as taxas, quadruplicando as dívidas dos países latino-americanos. Criada a forma mais eficaz de subjugar e dominar as rédeas do terceiro mundo.
É importante percebermos as minúcias das entrelinhas deste movimento, ou seja, inicia-se o deslocamento da dinâmica de acumulação fordista para a dinâmica de acumulação financeira, ou conforme lembra Chesnais, Capital de Placement, uma mistura de capital portador de juros com capital fictício (Ver Marx, Livro III – seção V). A importância de notarmos isto é que o consenso keynesiano foi uma exceção do modo de produção capitalista, uma exceção causada pelo trauma da crise de 29, que tratou com rédeas curtas o capital fictício e o capital portador de juros.
A segunda parte das reformas conservadoras é implementada por Reagan de um lado e Thatcher do outro. Nos EUA, o fato simbólico é a derrota da greve dos controladores de vôo e, na Inglaterra, a derrota da histórica categoria dos mineiros, lutadores que fizeram escola no mundo operário e que pela primeira vez depois dos anos 20 sofreram uma derrota implacável. Economicamente o movimento se resume da seguinte forma: precarização das relações trabalhistas, aumento do lucro em detrimento do salário e transformação do espaço público em espaço de acumulação privada – as famosas privatizações. (Ver as causas contrariantes da Lei da queda tendencial da taxa de lucro, Marx, Livro III – seção III).
Logo em seguida, mais uma vitória expressiva do ocidente capitalista e que representa um inegável fôlego econômico e político ao imperialismo: a restauração do capitalismo nos antigos estados do Leste da Europa e na China, em outras palavras mais espaço para realização de acumulação capitalista, força de trabalho qualificada, barata e disciplinada para explorar.
Este é o cenário em que se configura o ajuste de forças para o novo contra-ataque do capitalismo, o imperialismo na fase neoliberal depende do mecanismo do capital financeiro. Onde ocorre a separação da propriedade e da gestão de suas tensões, em outras palavras às bolsas (sociedades-anônimas), e os fundos de investimentos são os agentes e os cenários econômicos das famílias mais ricas do mundo. Lembrando Hilferding, a fusão das classes capitalistas superiores com as instituições financeiras.
Apesar deste novo fôlego que a forma social do capital adquire, as forças populares iniciam a constituição de novas formas de organização[7], novos tipos de organização de novo tipo, e novas saídas democráticas e populares. Destes novos modelos populares de alternativas antineoliberais, temos exemplos tanto dentro quanto fora dos marcos do Estado. Das novas saídas antineoliberais que surgem dento dos marcos estatais, como destaque apontamos a Venezuela Bolivariana, com um programa que apresenta um modelo econômico ainda eclético e pouco resolvido, mas com uma postura antiimperialista no campo das relações internacionais e com um programa desenvolvimentista no plano nacional. Vale ressaltar que o desenvolvimentismo venezuelano é marcado por um Estado que busca a construção da cultura protagonista nos populares venezuelanos.
Algo semelhante a Furtado na Dialética do Desenvolvimento, onde ele aponta que uma saída democrática e popular se dará com forte presença dos trabalhadores na construção deste novo modelo de inclusão e democratização da riqueza, da política e do trabalho. Enfim, inicia-se a configuração de um novo cenário na América Latina, novas forças de resistência aos modelos econômicos do Banco Mundial e do FMI, a América Latina paulatinamente re-aparece como um espaço de lutas avançadas e grandes possibilidades, a Venezuela possui um papel significativo neste novo cenário.
2 – Antecedentes do Processo Bolivariano: Breve esboço da História Econômica da IV República.
A esquerda e os setores progressistas da Venezuela foram incapazes de capitalizar o êxito do levante cívico-militar contra a ditadura de Perez Jimenez (1948-1958), a oligarquia venezuelana em conluio com o imperialismo planificou uma forma de minar as forças populares que foram colocadas em movimento na derrubada da ditadura de Jimenez, neste sentido, elaboraram o Pacto de Punto Fijo, projeto estratégico para a manutenção da democracia de dois partidos Ação Democrática (AD) e Comitê de Organização Política Eleitoral Independente (Copei)[8], momento lamentável, mas importante também para a consolidação de um desenho econômico, onde desde os anos 20, a Venezuela paulatinamente deixa de ser um país agro-exportador pautado pela monocultura e inicia sua jornada no restrito fórum dos países exportadores de petróleo, mas como uma economia dependente e subdesenvolvida. A Venezuela da IV República[9] merece destaque por ser um dos países da América Latina que tiveram um excelente desempenho na Aliança Para o Progresso[10], plano desenhado pelos Estados Unidos para frear e evitar novas revoluções cubanas na América Latina. Tanto a AD quanto o Copei tiveram programas econômicos correlatos com a Aliança Para o Progresso.
A Venezuela seguiu as tendências da América Latina e também optou por planos de substituição de importações[11], com o intuito de buscar a industrialização e superar os entraves do subdesenvolvimento. Entre os anos de 1960 até 1964 a Venezuela[12] obteve um significativo crescimento no PIB. Porém, os salários não cresceram no mesmo ritmo que os lucros e as rendas. Sua economia possuía pouco dinamismo e era incapaz de desenvolver de forma homogênea todos os setores da economia. Ou seja, dependia da importação de bens de capitais, de insumos e não possuía mercado interno. Resultado: déficits na balança de pagamentos, deterioração dos fatores de produção e uma economia condenada a trocas desiguais.
A partir da crise dos petrodólares, a Venezuela, maior reserva de petróleo fora do Oriente Médio, é inundada pelos dólares advindos da especulação com o ouro negro, momento onde que se inicia a deterioração[13] do setor produtivo venezuelano, pouco competitivo e fadado á trocas desiguais. Sua moeda é sobrevalorizada e criam-se mecanismos na economia que de forma pouco saudável e insustentável transformam a Venezuela em um país tipicamente rentista, sua acumulação dependente diretamente da dinâmica do mercado internacional de combustíveis fósseis. Com uma indústria em refluxo, inicia-se o momento de dependência radical do consumo pautado por importações. Uma economia pouco competitiva, rentista e com alta concentração de renda. Este é o ciclo de 1973-1982, marcado pela arapuca econômica criada pelo próprio Estado venezuelano. Onde o Estado cumpre a função de captador de divisas através do comércio internacional do petróleo e distribui de forma desigual e sem lastro produtivo (internamente). Criou um ciclo vicioso de acumulação que depende exclusivamente do bom humor do mercado internacional e ao mesmo tempo não preenche o hiato de sua própria economia (construir um parque produtivo e consolidar um mercado interno). Ou seja, uma burguesia parasitária com padrão de consumo de primeiro mundo, dependente do Estado, que desconhece o Animal Spirit. Uma classe trabalhadora que em sua generalidade não consegue atingir o status de operário, com organismos de classe (sindicatos) cooptados pelos partidos da ordem.
Seguindo a tendência das economias da América Latina o período de 1982 até 1988 foi um período de estagnação, de crises acentuadas pelo maior mecanismo de extração e espoliação de divisas dos países subdesenvolvidos, o mecanismo conhecido por dívida externa. A partir de 1989, com o segundo governo de Carlos Andrés Perez, a Venezuela assume o ideário da modernização conservadora. Inicia os ajustes neoliberais e, em 27 de fevereiro, inicia-se o maior abalo sísmico dos últimos tempos, na estrutura social venezuelana, este é o rompimento do tecido social da IV República, causando um quase que incurável trauma social, o movimento espontâneo dos populares venezuelanos que se rebelaram contra a pobreza e a corrupção, tal movimento ficou conhecido como Caracazo. Para muitos especialistas, este é o momento que se consolidam as condições para o movimento da Venezuela Bolivariana ascender e tomar corpo no movimento real.
3 – Venezuela Bolivariana e o Projeto de Transição: um País Rentista Rumo a Soberania Produtiva.
Ao largo de vinte anos a economia venezuelana experimentou o amargo gosto da descapitalização e de um processo de sucateamento da indústria nacional. Tanto o investimento estatal quanto o privado reduziram drasticamente. E mesmo no momento em que ocorreu a estatização da Petróleos de Venezuela S.A. – PDVSA (1979) e a construção de um parque produtivo (década de 70), ainda assim, a oligarquia venezuelana foi incapaz desenvolver um parque produtivo autônomo, pois fomentava o investimento de empresas com características monopolísticas, e a tecnocracia estatal que administrava a PDVSA, uma burguesia internacionalizada que desconhecia e desconhece projetos nacionais e interesse nacional. O resultado foi a obsolescência do capital produtivo, déficit na balança comercial.
Alguns fatores podem ser considerados para entender a descapitalização venezuelana, segundo o Programa Hacia a Venezuela Productiva um dos fatores fundamentais foi à ausência de Estado regulador e planejador de políticas públicas soberanas e eficazes no sentido de garantir a capacitação técnica da mão de obra, o investimento produtivo e por sua vez uma margem considerável de demanda agregada. Em um mundo globalizado, onde a tecnologia possui um papel determinante para medir o padrão de competitividade de um país, a Venezuela apresenta-se como um país com uma indústria frágil, deteriorada e descapitalizada, um trabalhador pouco qualificado e com um custo proporcionalmente alto em comparação com o mercado latino-americano – ou seja, os bens de consumo operário são quase que em sua totalidade importados[14].
O programa econômico de Chavez no processo eleitoral apontou para uma saída humanista e solidária, com referências aos modelos cooperativos, porém, ainda não apontava um programa estratégico com um corte epistemologicamente definido, com um planejamento tático de curto e médio prazo. Seu programa desenvolveu uma leitura que o mercado pode cumprir papéis importantes no sentido de fomentar o desenvolvimento, mas um mercado com rédeas curtas, um mercado educado e administrado pelo Estado. Ou seja, seu modelo é eclético e precisa ser eclético para manter os grupos e forças de sustentação do governo, que se engalfinham entre a própria base de forma tão leonina quanto contra os esquálidos[15]. Para se entender o modelo econômico do processo bolivariano é fundamental ter um olho na luta de classes e outro voltado para a disputa de hegemonia programática no seio da própria base do governo. Devemos entender que o mote constituinte do bloco chavista passou essencialmente por duas questões fundamentais, a primeira, a construção de um novo Estado Venezuelano, a V república significa essencialmente a superação do Estado cunhado na IV república, e o segundo ponto, aglutinar forças sociais em torno deste projeto.
A Constituição da República Bolivariana é o desenho jurídico de uma nova ordem social, com horizonte na democratização do poder político e democratização das riquezas. As leis que costuram a constituição apontam por uma saída que supere o Estado burocrático e impopular do puntofijismo e ao mesmo tempo em que supere a condição de economia rentista.
Porém, sabemos que a mudança na dinâmica de acumulação da Venezuela passará essencialmente pelas condições objetivas e subjetivas da Venezuela. Das objetivas destacamos a necessidade de retomar a indústria venezuelana, neste sentido, Chavez através do conceito de indústrias mistas vem incentivando a formação bruta de capital fixo e a recapacitação tecnológica do parque produtivo, com ênfase nas indústrias de base. Soberania Produtiva uma das bandeiras econômicas do chavismo. O segundo ponto, ainda no campo objetivo, é a conquista da soberania alimentar, modificando o atual desenho agrário da Venezuela através da Reforma agrária e da capacitação técnica do trabalhador[16] do campo.
No campo subjetivo, destacamos o avanço da consciência dos venezuelanos, hoje Venezuela é palco de uma forte guerra de idéias, a luta de classes está acirrada, um momento em que a população se divide entre uma maioria historicamente esquecida, e que hoje começa a ter acesso as riquezas geradas pelo mesmo petróleo. Hoje, a Venezuela através das missões sociais tenta resolver as dívidas históricas com as classes subalternas, re-significa o conceito de cidadania através dos conselhos comunitários[17], espaços de tomada de decisão da população. E do outro lado uma minoria parasitária, rentista e golpista. As cartas foram dadas, o futuro da Venezuela será uma escolha dos venezuelanos, e será decidido no ringue da luta de classes.
Periodização da Política Econômica do Processo Bolivariano: Desenvolvimento Endógeno.
Neste breve texto, tentamos demonstrar que o Estado pontufijista foi profundamente marcado pela concentração de renda e pelo grande hiato entre o poder político e os populares, uma organização social altamente elitista. Um Estado que criou uma oligarquia extremamente rentista, que não soube conduzir a economia venezuelana no período do choque no preço do petróleo articulado pela Opep e foi condenada pela deterioração dos fatores de produção e pelas trocas desiguais. Uma oligarquia que desconhecia projetos nacionais, que sempre se colocou como uma sócia menor do imperialismo e que condenava milhões de trabalhadores à miséria.
Chavez surge como o representante de um bloco de forças sociais que possuem como eixos programáticos à superação do Estado burocrático e corrupto formado pelos puntofijistas. Neste sentido desperta uma nação e as teses furtadianas de desenvolvimento são testados na prática, somente os trabalhadores podem levar adiante um projeto democrático e popular.
Etapas do controle do Estado e economia planejada para o desenvolvimento:
1 – Modificação na lei dos Hidrocarbonetos: Imposto sobre as transnacionais petroleiras, e nacionalização dos recursos naturais;
2 – Controle de Câmbio: Essencialmente para conter a queda de reservas, forma que a oligarquia-rentista (golpista) encontrou para sabotar a economia venezuelana.
3 – Nova lei do Banco Central: Da autonomia submissa aos interesses do mercado, o Banco Central da Venezuela se insere nos deveres constitucionais, segue os interesses da nação e não dos investidores institucionais.
4 – Criação do FONDEN: Fondo de Desarollo Nacional, fundo voltado para incentivo do investimento produtivo e superar a condição de economia rentista. Condição sine qua non para tornar o modelo sustentável e superar a condição de economia subdesenvolvida. Não superar a condição de economia rentista subdesenvolvida poderá condenar o projeto.
5 – Ampliação do plano de investimentos na indústria de base: Efeito multiplicador dos investimentos privados e soberania produtiva.
6 – Missões Sociais: São programas sociais para preencher a dívida histórica com o povo que vive do trabalho. São missões de alfabetização de jovens e adultos, requalifiação profissional para o trabalhador, médicos da família e etc.. Enfim, já obteve resultados significativos, com o merecido destaque do fim do analfabetismo reconhecido pela UNESCO. Além de serem missões extraterritoriais e internacionalistas com importantes convênios com países da América Latina.
7 – Ministério da Agricultura e Terras junto com as universidades municipalizadas: Reforma agrária, apoio técnico e logístico para a distribuição do alimento produzido no campo. Sob a orientação do conceito de agro-ecologia, produção ambientalmente sustentável. Distribuição do alimento em Mercal, programa de mercados populares.
Podemos constatar esta em curso uma mudança significativa nos valores e na forma de distribuir a riqueza produzida pela Venezuela, porém, apesar de diagnosticado a insustentabilidade do modelo rentista petroleiro, hoje é o Estado o rentista e não mais a oligarquia. Mas é inegável que existe todo um esforço para buscar a sustentabilidade da economia venezuelana, através do desenvolvimento das forças produtivas (construindo uma indústria de base), desenvolvendo um mercado interno e requalificando o trabalhador venezuelano e a busca pela produção alimentar no campo. Ou seja, soberania produtiva, desenvolvimento social e soberania alimentar estas são as bandeiras levantadas pelo projeto bolivariano.
Para se chegar ao atual estágio, momento de transição, foi preciso colocar em movimento forças sociais, que com certeza dificilmente entrarão em refluxo em curto prazo, ou seja, o programa do chavismo foi cunhado e trabalhado no desenrolar da luta de classes. É um momento que devemos duvidar de afirmações rígidas, afirmando qual será o destino da Venezuela. Devemos duvidar de afirmações catastróficas de que ele é mais um ditador nacionalista burguês da América Latina e tampouco aderir incondicionalmente ao bloco chavista, numerosas possibilidades estão colocadas, as forças populares mais avançadas ganham espaço, os trabalhadores venezuelanos já despertaram para travar também a luta política[18]. A questão é saber até onde vai a vontade destes protagonistas do processo e, qual será sua habilidade política em construir organismos autônomos e independentes de classe. Indubitavelmente milhões de homens e mulheres venezuelanos são os grandes protagonistas da Venezuela que marcha. Sabemos qual o lado das forças democráticas e progressistas na trincheira formada na Venezuela. Pensar nas demandas históricas da classe trabalhadora nos levará a concluir este texto utilizando o seu título: Reforma ou Revolução? Pergunta que será respondida somente pela luta de classes.
[1] Referência direta ao debate histórico do movimento operário, com destaque a controvérsia entre Rosa Luxemburgo e Bernstein, quando a social democracia alemã se adapta á ordem capitalista e refuta as premissas marxistas de revolução, na revista teórica do SPD Neue Zeit.
[2] “Barrio” histórico da luta do povo caraquenho, um bairro que possui tradição de organização social urbana, além de já ter sido palco da luta armada urbana. As organizações tradicionais do bairro 23 de Enero são os conhecidos Movimiento Revolucionario Tupamaros e Coordinadora Simon Bolívar movimentos que de alguma forma derivam da tradição do Partido Comunista da Venezuela – PCV. Com a ascensão dos trabalhadores no processo bolivariano surgiram novas organizações “barriais” de luta e organização popular.
[3] Francisco Miranda e Simon Bolívar foram os Libertadores da América Espanhola. Atuaram na emancipação da Grã - Colômbia, formada pelos atuais Peru, Equador, Bolívia, Colômbia, Venezuela, Nova Granada e Panamá.
[4] PACTO DE PUNTO FIJO foi um modelo de transição da ditadura de Perez Jimenez para inviabilizar a possibilidade de a esquerda capitalizar politicamente a insurreição cívico-militar de 23 de Janeiro de 1958. Articulado pela oligarquia criolla venezuelana e o imperialismo, tiveram como êxito o controle do Estado venezuelano na democracia bipartidária da Ação Democrática (AD) e da Democracia-Cristã (Copei). Conseguiram evitar as reformas demandadas por boa parte da sociedade que se levantou no pacto-cívico militar contra a ditadura.
[5] Acontecimentos marcados pelo espontaneísmo insurrecional do povo Venezuelano em 27 de fevereiro de 1989. Infelizmente o Caracazo não será trabalhado neste texto, pois é um evento social de grande envergadura que mereceria um texto a parte para debater o significado deste momento.
[6] Os rentistas na Venezuela consistem naqueles que vivem ou viviam da renda gerada pelo petróleo.
[7] Destacamos os Piqueteros da Argentina com uma nova dinâmica de organização, pautado no marco da horizontalidade. Os Zapatistas que se organizam a partir de elementos da idiossincrasia da luta do povo mexicano e, no horizonte um novo ideário que rompe com os modelos clássicos de guerrilha e toma de poder. Os Cocaleros na Bolívia que surgem a partir de uma estrutura sindical com questões culturais balizando a ação. E os Sem-terra do Brasil, com um novo tipo de movimento social. Estes são alguns exemplos da nova forma de ser das novas organizações populares e proletárias da América Latina.
[8] O Copei é a Democracia Cristã venezuelana.
[9] Vale lembrar que este momento é conhecido como a IV República. Sendo que, I República é o momento onde o General Miranda impulsiona as forças de libertação nacional contra o jugo espanhol, a II República momento do polêmico governo de Simon Bolívar, III República marcado pelo golpe da oligarquia criolla contra o governo de Bolívar até seu desfecho na tragicômica ditadura de Jimenez, eis a IV república e seu Tratado de Punto Fijo.
[10] Aliança Para o Progresso nasce na carta de Punta Del Leste, política externa dos EUA para a América Latina, no período Kennedy, surge como um resposta ao episódio da Revolução Cubana, é extinto no ano de 1969 por Richard Nixon.
[11] Do período de 1959 até 1973 foram governos com características cepalinas, as reformas deste período chegaram a proporcionar par a Venezuela a produção de 79% dos bens de consumo imediato e 45% dos bens de consumo duráveis.
[12] O CORDIPLAN organiza o Plan Cuaternal (960-1964).
[13] Para alguns este momento é caracterizado pela economia venezuelana se contaminar pela doença holandesa.
[14] Destacamos que a Venezuela sequer possui soberania alimentar.
[15] Nome dado para os opositores de direita do processo.
[16] Mission Vuelvan Caras: requalificação profissional. E municipalização das universidades em um enlace forte com os setores produtivos, e o conceito de agro-ecologia balizando o desenvolvimento técnico na produção agrícola sustentável e ecológica.
[17] Consejos Communales: Organismo de democracia direta, possui um desenho jurídico que mereceria um estudo a parte. Sendo assim, o que nos interessa saber é que os conselhos possuem poder deliberativo. E existem parlamentares e setores dentro do próprio chavismo que ainda resistem aos conselhos comunitários.
[18] Luta política no sentido do salto do aqui e agora para as demandas históricas.



